O Carnaval já passou e adentramos o mês de março, prontos para começar o ano com tudo.
Mas será que conseguimos, de fato, aproveitar as férias, os feriados e o tão almejado, e ao
mesmo tempo temido, descanso?
No final e início do ano, vivemos verdadeiros rituais de passagem: encerramos ciclos e
iniciamos outros. Nesses momentos, é comum surgir em nós o desejo de mudar, de fazer
diferente, de começar projetos que ficaram esquecidos e de buscar nossa “melhor versão”.
Fazemos metas, criamos vision boards, pensamos em novas conquistas, novos hobbies, novos
hábitos. E não estou dizendo que isso é algo negativo, pelo contrário. Essas movimentações
são importantes. Elas nos colocam em ação, mobilizam nosso empenho de mudança e nos
ajudam, de fato, a alcançar objetivos. As metas trazem esperança: dias melhores, um “eu”
melhor, a possibilidade de recomeçar.
Mas… há espaço para descansar?
Em um mundo que nos cobra produtividade até mesmo fora do trabalho, pouco vemos pessoas
realmente descansando, e pouco descansamos. Parece até errado. Como assim ficar em casa
nas férias? Como assim não desenvolver um novo hábito? Como assim dormir um pouco mais?
Existe pouca tolerância, inclusive da nossa própria parte, para simplesmente parar.
Ao ler a história da criação do mundo na Bíblia, vemos que, após criar o mundo, Deus
descansou. Independentemente da crença, essa narrativa nos ajuda a ilustrar algo
fundamental: após períodos de produtividade, é necessário descansar. O descanso impacta
diretamente nossa saúde mental e física, além da qualidade da nossa entrega no trabalho e na
carreira. Ao contrário do que muitos discursos sugerem, não somos seres de energia
inesgotável. Em algum momento, ela se esgota. E, se não atentarmos a isso, o custo aparece
seja na queda de produtividade, na dificuldade de concentração, na irritabilidade ou até no
adoecimento.
Se essa lógica parece tão evidente, por que ainda assim temos tanta dificuldade em aplicá-la?
Entender racionalmente que precisamos descansar é fácil. Difícil é, de fato, permitir-nos fazê-lo.
Vivemos em uma sociedade bombardeada, por todos os lados, por mensagens que valorizam o
fazer acima do ser. E quem somos quando não estamos produzindo? A simples existência
parece não ser suficiente. O descanso, muitas vezes, torna-se privilégio.
Em um contexto que repete frases como “tempo é dinheiro” e “trabalhe enquanto eles
dormem”, pausar pode soar quase como um ato de resistência. Talvez, em certa medida, seja
mesmo: um movimento contracultural, ainda que, infelizmente, acessível a poucos.
Por isso, ao voltarmos ao novo ano e às novas metas, talvez caiba uma provocação diferente:
e se o descanso também pudesse ser uma meta?
O que te faz descansar de verdade?
E o que podemos aprender, ou simplesmente permitir não aprender, não fazer, ao descansar?